Naquela tarde a praia estava nublada e apenas algumas poucas pessoas andavam pela orla, areia ou o raso do mar. Estávamos sentados em cima de nossas jaquetas e seu braço “descansava”, segundo você, em meus ombros que tremiam de frio enquanto olhávamos ambos para o mar e para toda aquela imensidão da qual eu sentia medo, meu peito se apertava a cada onda que se quebrava antes de chegar à parte da qual minha altura considerava seguro e eu sorri ao pensar nisso. É o tipo de coisa que você me pararia para brincar e eu fingir que estou irritada o suficiente para dizer que o odeio.

A brisa soprou meus cabelos e por um instante sinto a calma daquele momento me preencher, e naquele segundo eu me sentia parte daquela praia nublada – quase vazia – e de, talvez, um pouquinho dele. Digo “um pouquinho” porque o olhando, penso o quanto ele se parece com uma obra de arte impressionista. Daquelas que você admira por horas e ainda assim precisa de diversas visitas até entender a alma daquele quadro, mas, ainda assim, mesmo prestando atenção a cada mínimo detalhe, você não o conhecerá. Porque não é assim que se conhece alguém, admirando-o. Você o conhece naquele defeito que ele julga tão grandioso, mas que para você é apenas uma contribuição para todo o belo confuso conjunto do qual ele forma; o conhece naquela fotografia da qual ele conta a história tão entusiasmado que você se questiona se deve se encantar com a fotografia ou com ele; o conhece pelo timbre da risada e pelo sotaque que você diz ser ridículo, mas que antes de dormir só consegue pensar em como um ser humano desse tem coragem de rir e falar de um jeito capaz de te desmontar toda; o conhece na alegria cotidiana e na tristeza quase singela que ele tenta mascarar com aquele humor ácido; o conhece conversando sobre política, cinema, música, arte e sobre como querem visitar países, cidades, museus e cafés e o quanto gostaria de levar um ao outro em lugares que pensam que o outro vá gostar. Porque você gosta e isso já torna tudo especial.

Meus dedos contornam a costura do jeans e deixo um suspiro irritado escapar, porque quero te conhecer tanto? Saber seu filme favorito, questionar se gosta das paletas de cores dos filmes do Wes Anderson e perguntar se sabia que o Hotel Budapeste é uma miniatura. Você acredita, uma miniatura? Como te dizer que queria te levar nesse hotel e descobrir que aquilo tudo não passa de uma mentira cor de rosa com bolos do Mendl’s? Olho para a bainha do meu vestido e sinto vontade de dizer em meio ao riso que meu filme favorito é 2012. E pedir para que não ria de mim por isso, porque sei que ele é péssimo. Contar que sinto medo do escuro do meu quarto nas noites de chuva e que me sinto uma criança quando preciso segurar o choro por isso, mas te pedir para que qualquer noite me faça companhia, se puder. Se quiser. Sussurrar que talvez eu até goste de você e desse jeito torto, mas mudar de assunto antes que você me faça alguma pergunta, porque você sabe, eu gosto de fugir dos assuntos importantes.

Você vai me conhecer e eu, conhecer você. Mas por enquanto, conheço a sensação de querer que cada partezinha minha toque cada partezinha sua, mesmo que seja o mais simples e delicado toque, como um enrolar de dedos e olhares. Olhares como os que te dou sob a nuvem negra que está acima de nós.

Essa mesma nuvem que me observa te olhar de lado, com receio de que você note que meus olhos estão em você não só hoje, mas há um bom tempo. Te admirando e conhecendo da forma mais simples e bonita que poderia me ser concedido. Algumas gotas enfim caem contornando nossos corpos e seu braço contorna o meu, me colocando debaixo de você e, naquela fração de segundos, onde não só nossos corpos, mas como nossas linhas do tempo colidiram, percebo o quanto quero que todos os dias sejam nublados e bonitos como você. Porque nem o cinza do céu ofusca as cores que explodem dentro de mim ao te olhar assim, tão bonito e impressionante.

E nesse segundo eu gostaria de te guardar numa polaroid, junto dessa praia vazia e nublada no bolso da minha jaqueta, do lado do meu coração.

Posted by:Malu Reining

uma nada extraordinária garota

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