Agnes era exótica. Estava longe de ser qualquer mulher. Afinal, uma mulher nunca será uma mulher qualquer, mas essa era diferente de qualquer outra. Era a moça que todos os homens do grande Rio amaria ver arrastando seu vestido rendado exalando sua silhuetas da maneira mais sonora que o som de um piano. Era uma nota descendo em sintonia com o andar que parecia uma metáfora a linguagem. Eram as curvas mais desejadas daquele litoral.

Ela era uma canção típica brasileira. Engajada, poética e viva. Muitos a consideravam uma mulher de todos, pois querendo ou não era uma prostituta, sempre andando de baixo da luz vermelha. Era possível sentir as noites em seus olhos.

Do outro lado do amanhecer havia Carlos. Carlinhos para os próximos. Carlos ou Carlinhos, como Abel da quitanda o chamava, era um cantor de clássica inocência ilusório do amor. Um rosto pedindo para sofrer. pedindo para vida ser a escola crucial para o aprendizado. Um artista qualquer de passagem, sempre esperando sua garota de Ipanema passar cheia de graça. Procurava a poesia na realidade, mesmo achando e se embebedando na maestria da frustração.

Eis que tão iludido da carreira e do amor procurando por um escape, acabou aceitando o convite de Robert, seu melhor amigo, com muito entusiasmo. Foram ao ”Bar da Noite”, assim chamado por seus ilustres clientes. Partindo desse momento, um até então nômade no amor, acabou se vendo um mero sedentário ao avistar o rio pessoal mais denso deles, era apenas Agnes. Passou com uma sutileza tamanha que parecia descer como água pela garganta morta da sede.

Lá estavam ambos procurando por algo dentre uma bagunça chamada de sábado. Carlos apenas se aproximou do bar desejando um copo de água e nada mais. Talvez ali estivesse o motivo do seu fracasso artístico, a falta de bebida. Já diria Vinicius de Moraes, a bebida é o cachorro engarrafado.

Ao analisar esse detalhe peculiar, Agnes se aproximou e falou:

-Olha só, quem diria mais um homem de terno afogando as mágoas em…água?

Carlos olhou logo perplexo. Era a mesma moça que tinha visto na entrada, mas perto ela era ainda mais bela. Algo de diferente também pairava de diferente dentro da atmosfera de Agnes. Todo o som da música ficou súbito e íntimo escondida dentro de uma noite quieta e iluminada.

-Olha, acho que não preciso ficar bêbado para aceitar o fato de eu estar aqui.

-É? Pois bem…caso queira conversar da maneira antiga e francesa, amo aquele lugar lá no fundo. Cortinas roxas e abertas, como espero que a sua mente esteja na noite de hoje.

Sem titubear, Carlos logo aceitou sem ao menos saber o motivo de tudo aquilo estar acontecendo.

-Quem eu dou a honra de tamanha companhia?

-Carlos, mas pode me chamar de Carlinhos.

-Prazer, Agnes.

Talvez fosse o nome diferente, ali estava o motivo de tamanha estranheza. Ao mesmo tempo que tinha o ar forasteiro de perigo, havia o sangue carioca correndo em suas veias.

Carlos assistia atentamente o despir de Agnes como uma música em perfeita sintonia, mas abruptamente fez um novo convite.

-Vista sua roupa. Você pode sair daqui? Pago sua noite se necessário. Vamos sair, quero te conhecer.

A vez de ficar perplexa era de Agnes. Nunca havia conhecido nenhum homem que num lugar daquele esperaria por algo além de seus seios e sua virilha. Mas Carlos era diferente, parecia buscar uma mulher no senso puro e não um boneco que diria sim para tudo.

Ela despertou algo em Carlos que nem ele poderia compreender. Ambos fugiam de algo. Carlos de sua própria solidão e Agnes do raso ao profundo, algo verdadeiro. Saíram as pressas, livres correndo em frente à brisa do mar. Foram parando em todos os lugares possíveis. O Rio era deles e eles do Rio.

Agnes puxava o corpo e a mão de Carlos com leveza, o desejando. Dançaram até com música francesa, algo que ele julgava ser burguês demais. O olhar dela era sublime e o perfurava de fora para dentro. Uma beleza única. Tudo aconteceu naquela  noite, se eternizara ali mesmo. Tudo foi consumado, o amor, o fim do preconceito e a espontaneidade do momento e de uma relação.

Amanheceu como de praxe. Preocupado, Carlos levou Agnes para um bom café ao lado da orla. Após despedidas carinhosas, ele se lembrou do pagamento.

-Agnes, você esqueceu do seu pagamento!

Agnes apenas riu. Um homem tão alto de altura e pensamento, mas tão pequeno em sentimentos.

-Não preciso de pagamento. Para eles eu vendo meu corpo e não o meu amor.

Amor não é algo bem definido, toma várias formas. O poeta mais louco será aquele que tentará escrever e definir o amor. Ele é sentido e sem dúvidas não exato. Talvez aí esteja o motivo da matemática ser tão fria. Tudo parecia ser tão físico, mas com o tempo você percebe que o amor é mais, ele é companhia, momentos, ternura e a própria atração. Bem…foram as últimas palavras de Agnes, a mesma com aquele balançar que de fato beirava um poema.

Posted by:Victor Hugo

Just a mad man with a box.

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