Ela entrou pela porta e no exato momento em que passou por mim, me faltou o ar e a vi caminhar com passos leves e discretos, como se quisesse passar desapercebida. Não por mim.

Suas roupas eram totalmente pretas, assim como a tintura dos seus cabelos, os brincos, as pedras dos anéis, a meia calça desfiada (que acabou me fazendo pensar se eram assim mesmo ou se algum acidente havia acontecido antes de entrar no café), os sapatos e a bolsa.

A moça foi em direção a mesa logo a minha frente e por sorte não se sentou de costas e pude vê-la tirar um caderno da bolsa, alguns lápis e uma caneta tinteiro, levantou os olhos para mim e pude sentir meu coração parar por uma fração de segundo, como se estivesse se preparando para uma maratona. Meu batimento cardíaco foi de zero a 120bpm em dois segundos. Então ela se abaixou de novo e começou a desenhar algo em seu caderno, parecia que ela nem precisava olhar o que fazia, pois seus dedos iam sozinhos deslizando junto às linhas e traços.

Ela pediu um pedaço de cheesecake de chocolate e caramelo salgado, um café e continuou na leve e momentânea rotina de levantar os olhos para mim – praticamente fazendo disso um lembrete para que eu respirasse e me permitisse continuar ali – e com toda delicadeza, se abaixar e desenhar. Creio que ela percebeu o efeito que estava causando em mim e, em partes, parecia gostar daquilo, mesmo que suas bochechas corassem também cada vez que nossos olhares se trombavam no ar.

De repente ela levanta o papel no ar e o encara, desvio de seu olhar, pois ela me compara ao desenho. Ao voltar para ela, percebo que está arrumando todos os lápis na bolsa e organizando a mesa para sair. Eu não sei o seu nome, nem o que ela faz, só sei que vou sentir saudades. Quando ela passa por mim, não consigo olhar para ela depois desse nosso breve relacionamento, como quando se responde um tchauzinho no metrô que era na verdade pra pessoa que está no banco atrás do seu e você deseja somente não estar ali. Encaro meu café que acabou há um bom tempo, me lembro que devia ter saído dali há 20 minutos, mas não podia deixá-la. Sinto sua presença estendida ao meu lado e olho para ela ali, olhando para mim também, sorrindo com o desenho na mão e a mão estendida para mim e como se fosse sussurrar pra mim, disse:

– pegue, é seu.

Segurei o desenho, sorri e senti o calor de suas mãos, pude também sentir um perfume leve de hortênsias como se estivesse carregando um ramo delas bem atrás das orelhas. E assim como chegou, se foi com os mesmos passos discretos e silenciosos. Deixando-me apenas com um desenho meu e dela juntos, que em seu verso continha um pequeno segredo nosso “Já sinto sua falta, mas… qual seu nome?”

[Ilustração por Juliana Meneghelli]

Posted by:Isabela Meneghelli

Some moments are even worthing write about.

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