Clarice tem três furos na orelha e não usa nenhum. Tem pintas e sardas, estrias e a boca torta. O cabelo é torto, também, e é capricorniana, gênio difícil, com ascendente em áries e aquela lua em leão. Vênus? Capricórnio. Que o trópico de capricórnio tenha sido inspirado nesta menina, assim como este estudo geográfico, ela tem um único dia a cada ano, em que o sol estará em seu completo zênite, em seu ponto mais alto. 

Clarice é agnóstica, mas já frequentou o catolicismo, espiritismo, umbanda, budismo e ainda tenta conhecer outras religiões. Mas mesmo não acreditando em um Deus específico, retribui o “vai com Deus” que sua avó lhe diz a cada sair de casa.

Clarice arruma suas blusas por cor, mesmo que depois de um dia tudo já vá estar de cabeça para baixo. O mesmo acontece com sua escrivaninha, os papéis organizados por ordem de importância depois de uma hora já estão jogados entre as folhas da agenda.

A bolsa de Clarice precisa de um guia. Como pode, é tão pequena! De lá sai documento, aquela carteirinha do ensino médio que ela não pode nem ao menos usar, remédio para curar dez doenças distintas, um protetor labial, a chave do Louvre, MASP, MoMA e de sua casa, guardanapos do Mc Donald’s, um açúcar orgânico roubado do Starbucks, chiclete de canela, seus óculos de grau, esmaltes, papéis que provavelmente nem ela sabe do que se trata e restos mortais de suas noites na grande São Paulo.

Clarice tem tanto livro que eu me pergunto se ela já leu todos. Sim, ela já leu todos. Cada letra, vírgula e ponto foram lidos pela menina do 481. Ela tem um dicionário de 748 páginas em inglês que ganhou de seu pai, ela não o abre, provavelmente a lembrança de o ter a machuque. 

Ela coleciona perfumes, conchas, canetas, post-its e papéis que contenham algum momento especial. Ou qualquer coisa que simbolize algo ou lembre alguém. Clarice será que guarda algo meu? Ela tem uma caixa, rosa e de bolinhas brancas. E eu sei que no fundo tem as polaroids de sua família, quando tudo ainda não era ruína, talvez a conforte saber que a memória se mantém em uma caixa no fundo do armário. 

Clarice não come legumes ou verduras, mas a toda consulta que vai, os médicos a questionam de como sua saúde é boa. Ela dá de ombros e sorri, fazer o que se a vida lhe foi generosa nesse quesito? Mas só nesse. De resto, a garota não passa de uma ferrada. A cabeça? Nada boa, terapia desde 2010 e quem chora é o terapeuta. 

– Clarice, de onde tanto problema? 

Os remédios estão guardados no fundo da gaveta e os hematomas e cicatrizes dos baques da vida são cobertos pelas jaquetas que Clarice usa todo dia. Ela se veste de orgulho e tromba os outros com seu olhar dissimulado. Mas vez ou outra ela encontra alguém pra ferir esse orgulho e cativar esses olhos tão negros. Mas não se engane, a fachada de Capitu é só mais uma maneira idiota de se proteger, ela tem um bom coração, segundo sua avó e seus bichos de estimação. 

Clarice se move pela arte. Seu corpo pequeno é tela para a cor da vida, tem o roxo, o azul, o verde e o vermelho, um pouco de cinza e muito amarelo. Ela tem o que de natureza morta junto do pós-impressionismo, misturado com um pouco do arcadismo e ultrarromântico. A menina quer ter tudo que a arte tem mas quer ser abstrata para quem a vê de fora.

Toma suco de abacaxi com hortelã, água – mas só gelada -, chá de tudo que você imaginar e vinho. Do tanto que já a vi beber, talvez tenha uma vinícola dentro de si. 

Clarice não finaliza nada que começa, tem medo de finais. Também não mostra o que sente e engole tudo para si mesma, fazendo mal ou não. Ela também não telefona para a mãe, para o pai ou para a operadora pra cancelar aquele plano de dados. Não gosta muito de muitas coisas ou de muitas pessoas, mas quando gosta, o trópico de capricórnio enfim entra em seu zênite, e não só uma vez ao ano. 

Posted by:Malu Reining

uma nada extraordinária garota

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