Confesso: senti um gigantesco alívio quando Jordan Horowitz, um dos produtores de La La Land, anunciou que o filme que havia participado não tinha ganhado o Oscar de Melhor Filme.

A confusão que roubou a cena da 89ª edição dos Academy Awards gerou-se quando houve a entrega do envelope errado para os anunciantes da ocasião – Warren Beatty e Faye Dunaway, homenageados devido ao 50º aniversário de Bonnie e Clyde, filme que protagonizaram juntos – contendo o nome da atriz vencedora do prêmio de Melhor Atriz, Emma Stone, que protagonizou La La Land. Durante o discurso de aceitação, confirmou-se o erro e que o vencedor era na verdade Moonlight, do diretor Barry Jenkins.

Chegamos, então, ao ponto de início do texto. Quando o já mencionado produtor Jordan Horowitz mostrou para a câmera o envelope certo, a leitura da minha expressão facial era bem clara: desafogo extremo.

Não que o filme do premiado melhor diretor Damien Chazelle não merecesse esta ou as outras seis estatuetas que já havia ganho naquela noite. Aliás, ser reconhecido por prêmios importantes, como os que faturou (Melhor Cinematografia, Melhor Direção de Arte, Melhor Canção Original, Melhor Trilha Sonora, Melhor Atriz e Melhor Diretor) já é digno de nota e entra para a história da Academia.

Entretanto, a vitória de Moonlight pode ser vista como o triunfo dos filmes com certo grau de compromisso social e temáticas “pesadas”, ou seja, que passam uma profunda mensagem que influencia a sociedade de uma maneira geral. E isso pode ser enxergado em outras obras cinematográficas que concorriam ao Oscar de Melhor Filme – uma lista na qual não consigo incluir o nome de La La Land.

Moonlight aborda as dificuldades da vida de Chiron, negro, homossexual e do gueto, que sofre também abusos físicos e psicológicos como decorrência desses três fatores, aliados ao comportamento singular de sua mãe.

Hidden Figures (ou Estrelas Além do Tempo), baseado no livro homônimo, conta a história de matemáticas mulheres e negras que trabalharam na NASA durante a Guerra Fria, mais precisamente, ao longo da corrida espacial. Sua trajetória é composta da superação do preconceito que Katherine Goble Johnson, Dorothy Vaughan e Mary Jackson sofreram dentro do ambiente altamente intelectual da agência espacial.

Lion mostra ao público a verídica história de Saroo Brierley, garoto pobre e indiano que se perdeu de sua família aos cinco anos de idade. Passando por diversos obstáculos ao longo do caminho, Saroo é colocado em um orfanato e adotado por uma família australiana, com ótimas condições de vida. Com a chegada de sua vida adulta, encontra-se determinado a encontrar sua família biológica. Antes dos créditos, é informado ao público que cerca de oitenta mil crianças se perdem na Índia todo ano, e que o filme tem trabalhado com organizações que ajudam jovens nessa situação por todo o mundo, ajudando a proteger os moradores de rua mirins.

Hacksaw Ridge (ou Até o Último Homem) conta a trajetória baseada em fatos reais de Desmond Doss, combatente da Segunda Guerra Mundial, que devido aos seus conceitos religiosos se recusava a tocar em uma arma. Enfrentando a resistência do resto do exército americano, ele consegue se tornar o primeiro objetor de consciência a ganhar a Medalha de Honra, pelos seus serviços médicos e utilitários durante a Batalha de Okinawa.

Fences, de Denzel Washington, ilustra como o racismo afeta a vida de uma pessoa. Troy Maxson, catador de lixo na rua, luta para subir na empresa em que trabalha e se tornar um motorista do caminhão de lixo. Entretanto, dentro de Troy existe um sentimento forte de rancor por não ter conseguido se tornar um jogador de beisebol, tudo por conta de ser negro. E é justamente por causa disso que ele evita que seu filho siga a carreira profissional.

Toda essa listagem serviu para demonstrar quanto conteúdo extremamente significante para nós existia em parte da lista de concorrentes à Melhor Filme do Oscar. Porém, não desmereço a temática de La La Land. O filme é primoroso do ponto de vista técnico, e tem um grande viés de entretenimento. Apenas penso que coroar e reconhecer filmes com profunda relevância social, nos tempos atuais, é fundamental para prosseguirmos juntos, como um todo.

Posted by:Felipe Leite

One thought on “Fiquei feliz com o erro no anúncio de Melhor Filme do Oscar

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