Ela se movia lentamente, com aqueles passos de quem não quer acordar alguém. E ela, de fato, não queria. Mas é aí que está a questão, meus caros, não era alguém que ela estava evitando acordar, mas sim algo. Algo dentro dela. Daquele corpo tão pequenino e cheio de rachaduras gigantescas, que a atravessavam dos pés inquietos até o pescoço enrijecido virado para o grande bar do bistro.

O perfume doce exalava a cada passo que ela dava em minha direção, mas não se engane, ela não me vê. E se vê, me ignora com a mesma audácia da qual ousa andar nas pontas dos pés em um piso de madeira velha e barulhenta. E ela falha. Os fios curtos e castanhos caem na bochecha, os ombros se fecham e os lábios são umidecidos em uma constante que a física não explicaria. 

Eu girava o copo vazio de whisky no grande balcão, observando o resto da bebida se transformar em um pequeno particular redemoinho das minhas angústia. Meus olhos fixam nas marcas daquele grande bloco de madeira onde haviam nomes, desenhos, números e marcas de copos que provavelmente tinham sido esquecidos por seus donos em uma dessas noites frias de inverno. Fecho os olhos por um instante e uma ansiedade súbita toma conta de mim, os pés balançam em um ritmo frenético e meus sentidos entram em alerta. Abro os olhos, pisco repetidas vezes e engulo em seco. Observo todo a extensão do bar e ali está, bem ali, sentada e tirando seu grande casaco. Ela me olha por de baixo dos grandes cílios e aperta os lábios, encostando as costas nos bancos desconfortáveis que só esses bistros aos pedaços do Tartre nos ofereciam. 

– Uma taça de vinho. 

Os dedos finos de unhas vinho batucavam a madeira escura do cubículo em que nos encontrávamos, o peito subia e descia em uma frequência que meus olhos não se cansavam de admirar. Deve ser cansativo tentar não despertar a selvageria que ela carregava naquele vestido preto justo e saltos altos, a ousadia de tentar ser menos do que uma grande mulher como ela, é. 

Os fios escuros se ajeitam na curvatura da clavícula e suas mãos procuram algo no bolso da bolsa. Cigarro. E um isqueiro. Ela o acende e o traga de olhos fechados, apertando os labios em seguida na borda da taça de vinho, deixando ali a poesia que eu batalharia para ter: a marca de seu batom vermelho. Ela estala a língua e sorri. O sorriso de uma boca amarga que não reconhece mais o veneno que é posto em sua frente.

Eu não bebi mais nada depois daquela dose de whisky, estava embriagado o suficiente com a energia que ela emanava apenas em estar ali, bebendo e fumando ao meu lado como alguém boa o suficiente para qualquer um. Para ela mesma, até. 

Horas e horas se passaram assim, com doses homeopáticas de anestesia do seu perfume doce e navalhas que me eram fincada por seu olhar arrogante. A cacofonia do lugar já não me incomodava mais, não era nada comparado ao som dos gritos que seu coração dava, pedindo para que eu me afastasse e desse meia volta o mais rápido possível. Para ela, eu estava na contra mão. E para a minha sorte (ou azar), eu gostava de correr um perigo pelas vielas da cidade. 

Eu perdi a conta de qual taça ela já estava, mas posso te dizer quantos olhares atravessados e suspiros irritados demos nessa nova relação que criei neste bar caquético: vinte e seis. Vinte e seis vezes ela olhou minha barba por fazer, o cabelo desajeitado, as pintas mal posicionadas e os meu nervosismo eminente. E em todos esses olhares, eu decorei cada constelação de seu rosto e cada pequeno sorriso que ela me dava a honra de apreciar. 

Ela já estava agradecendo ao garçom pelo vinho e fazendo breves comentários sobre o clima, arrastando o sotaque francês a cada riso abafado que dava através da xícara de café. Em passos rápidos e quietos, ela se dirige até a pequena porta do restaurante, e, por cima de seus ombros, seus olhos trombam os meus mais uma vez e sua sobrancelha se levanta, num tom nada surpreso de quem já esperava por minha estagnação. 

Nosso relacionamento teria chegado ao fim antes mesmo de começar. 

Sua mão empurra a porta e em questão de segundos, não há mais nada além de seu cheiro naquele lugar. Meu peito se aperta e fecho os olhos, reagindo contra os impulsos que minha mente me obriga a tomar. Batuco os dedos em um nome, uma, duas, três vezes e me levanto, pegando meu casaco e deixando uma nota para pagar pela bebida. Paro em frente a porta e olho para o garçom, ele então sorri e balança a cabeça, como se soubesse já o final daquela história. Enfim, empurro a porta e ali está ela, encostada no ponto de táxi tragando seu cigarro e batendo com os pés no asfalto coberto pela neve. 

– Cécile?

E ela me olhou. Olhou de verdade.  

E eu soube, ali, que ela nunca mais conseguiria andar em passos rasos no meu peito. 

Posted by:Malu Reining

uma nada extraordinária garota

2 replies on “Cacofonia de olhares e vinho

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s