6 da tarde. Nada havia mudado, nem mesmo o clima. A rua era a mesma, o prefeito não tampou o buraco e o ônibus não chegou. Seria o trânsito? Talvez. O Rio era ocupado demais para se cumprir um horário. Mas como todas as demais tardes de uma bela jornada chamada de vida, Amarante esperava seu ônibus.

Amarante sequer era Carioca. Era mineiro, não do tipo engravatado andando pela Paulista. Era o mineiro do pão de queijo e que abominava o Atlético. Parou cedo no Rio. Era um garoto bom de vida, lá da baixada Fluminense. Nada de extraordinário, mas exatamente ordinário. Amarante sempre buscava uma mudança, o pulo, o fim da zona de conforto imposta por si mesmo. Um significado.

Do outro lado passava Francesca com seu suave balançar e pela primeira vez no ponto e naquele horário. Essa mudança foi perceptível na visão metódica de Amarante. Ele era de exatas, sempre buscando a razão. Ela era de humanas, sempre buscando a segunda opção.

Francesca era um ultraje ao comum. Mulher mais idealizada que Daisy de Gatsby, ou qualquer mulher de Fitzgerald por instância. Era a arte dentre curvas que se não carros, olhares e pensamentos se perderiam. Era italiana, de Nápoles. Da máfia não era, mas assassinava qualquer coração.

O ponto tinha apenas Amarante, Francesca e duas senhoras falando do beijo gay na novela das nove. Por algum motivo que sequer sabia o universo, Francesca foi se aproximando como quem não quer nada e pediu algo:

-Você me daria um desses seus cigarros?

Foi simplesmente uma ofensa a bolha social que Amarante chamava de ”meu espaço”. Como uma menina tão desejada pelo contingente masculino poderia estar falando com ele.

-Não?

-Ora, você tem um maço fechadinho na sua mochila. Parece dos bons, é Marlboro?

Nada mais inusitado que uma italiana com um sotaque patético pedindo um cigarro com ”dos bons”. Ela não estava pedindo erva nos embalos da noite. Ou erva do inimigo, como diria dona Clarice, mãe de Amarante. Pernambucana mais carioca do Brasil.

-Não não, é Viceroy. Eu não fumo, mas se você quiser tanto assim.

-Espera, você coleciona maço de cigarro? Desculpa, mas acho que você está algumas décadas atrasadas.

-Não sabia que as coisas se limitavam tanto assim.

-De qualquer maneira, aceito esse tal de Viceroy.

-Que menina intrusiva você, não? É apenas um significado, por causa do meu tio.

-Seu tio…? Também tenho um, muito querido ele.

-Que doce o seu sarcasmo. Meu tio também era querido, mas ele morreu.

-Meus pêsames, desculpa. Sério mesmo.

-Relaxa, ele morreu faz um tempo. Dois anos, mas ele curtia esse seu amigo cigarro aí.

A verdade que seu tio era a imagem de um homem ideal. Ajudou dona Clarice a criar Amarante, um excelente médico e amava escutar as mais diversas bandas ao redor do mundo. Uma pessoa carismática que foi escondida dentre a fumaça.

-Grande amigo mesmo, mas qual o motivo de ficar carregando isso?

-Ele me entregou no leito. Só para me lembrar de quem o matou, vulgo ele mesmo. Mas é apenas um sign…qual o motivo de eu estar falando com você? E cadê essa porra de ônibus?

-Vejamos, eu sou uma garota incrível e acredito que você não ficaria falando do personagem que traiu a esposa na novela com as duas senhoras. E querido, esqueceu que mudou para o horário de verão? São cinco horas.

-Mas que porra!

Essa menina era um afronte em pessoa ao seu orgulho. Ela conseguira quebrar tudo que Amarante havia construído ao redor do seu castelo de orgulho com um ‘ólá’.

-Tu vai ficar reclamando ou vai querer andar comigo? Quer vir? Eu estava de passagem mesmo. E mesmo você sendo carrancudo, é legalzinho.

-Legalzinho…

Não entendia enquanto o vento batia no rosto de Francesca enquanto seus cabelos flutuavam naquela brisa do mar. Era um lindo clichê com ponto final ao desastre. Foram andando pelas calçadas da cidade até acharem um corredor de árvores. Eram bonitas como figueiras escondendo o céu, tornando-o algo da imaginação. Era atraente, a visão de Amarante focava no vento e as folhas caindo e como nunca parou para perceber esses pequenos detalhes que a cidade oferecia. Cantores de rua tocavam sua música, separando seus ouvidos do barulho rotineiro de buzinas e pessoas resmungando.

-Você não fala muito, né?

-Bem…eu deveria falar alguma coisa?

-Olha, sei do seu tio e dos cigarros. Nada de muito interessante.

-Como assim nada de interessante?

-Amo quando faz essa cara de pasmo e bravo. Mas eu quero algo que fuja do básico. Sem o papo de ”Meu nome é Amarantes e tenho x anos.  Tenho cara de bunda, faço da minha vida uma grande merda e tenho camisa do Kraftwerk. Faço da minha vida um grande acúmulo de nada”.

-Bem agradável esse seu ponto de vista.Mas se você me julga tão ruim assim, qual o motivo de estar aqui? E fale sobre você, srta. Interessante.

-Agora você tem um ponto, mas na minha religião que é aqui que você paga os pecados, talvez seja isso. Quero saber das suas alegrias, loucuras e aflições. Sei lá…qual a coisa mais importante pra você?

-Não sei…Sucesso?

A lentidão na resposta de Amarante remontou a si o quão vazio e quebrado estava. Alguém com o mesmo prospecto de todos, mas sem algum rumo de onde esse sucesso se encaixaria. Dinheiro? Talvez. Estabilidade? Talvez. Sorte? Não sabia. Decisões complexas para se decidir ainda vivo.

-Hum, nem esperava por isso. Bem diferente você.

-Tá, mas qual é o seu?

-Talvez o amor?

-Amor?

-É, amor.

-Ok, amor então.

-Vejo aqui que alguém não é muito chegado no amor.

-Não é isso, eu só…nunca busquei.

-Quem nessa merda de mundo te disse que o amor se busca? Quem disse que estava falando de amor de casal? O amor bate na porta que nem aquela visita indesejada. Você não espera, mas aceita. Porém, as vezes é uma das melhores visitas que o ser humano pode receber.

-Qual é o seu signo mesmo?

-Vai se foder!

-Que belo signo o seu. De março?

-Vejo que alguém pegou o senso de humor. Mas eu falo sério, amor não é algo entre um homem e uma mulher, mas entre amor e amor. Não é simplesmente desejar um homem ou uma mulher. É querer morrer por esse, viver com ele e lutar por ele. Amar por dentro e fora e os olhares falarem mais que as mil páginas de Dostoiévski. Mas amor também é se amar, amar o próximo.

O silêncio consumiu a caminhada por um instante. Amarante nunca fora questionado sobre o amor. Nunca sequer parou pra pensar sobre e a beleza que talvez fosse sentir.

-Tá…e como você ama a si mesmo? Cada um tem sua interpretação disso, não?

-Claro. Você se ama para poder amar o outro alguém, nem que esse outro alguém seja o dia. Você come para sobreviver, trabalha e estuda para uma vida melhor. É se amar também, não?

-Talvez…

O sorriso de perplexidade ficou estampado em Amarante por alguns segundos e talvez sua vida toda. Fez se volver diante dela. Ninguém o havia feito pensar ou sentir. Era algo beirando a insanidade de sua razão e compreensão.

-Sempre fui pessimista.

-Mas sem motivos, convenhamos…

-Nem sei o motivo de estar me abrindo tanto com você, mas nunca parei pra pensar a respeito.

-Repito. Por sua opção.

-Eu não diria opção, mas circunstâncias. Sempre te vi passar e poderia muito bem puxar qualquer assunto, mas não.

-Sendo assim, tenho algo para você.

-Eu estava no meio do drama, mas tudo bem.

-Vamos aproveitar o resto do dia como se fosse o último dia desse famigerado planeta. Não importa a merda que você tenha pra fazer, apenas cancele.

-Eu tinha que passear com o Pug da minha vizinha.

-Não importa, apenas cancele.

-Ok, mas faríamos?

-Qualquer coisa, andar já é se aventurar. Ainda mais no Rio. Importa que estamos aqui, eu e você.

-Ok…

Tudo que um dia Amarante se limitou, acabou por se permitir de maneira suave e natural. Por mais que fosse algo novo e inusitado, caiu numa intimidade de momento na qual nem saberia como se reerguer, mas nada disso importava. Como todos os seres, ele também era vulnerável.

Logo saíram dali. Foram andando de uma rua até a outra ao anoitecer. A noite era bela. Mas seu orgulho não lhe permitiria elogiar a noite e muito menos a beleza natural de Francesca. Afinal, sua beleza estava muito além de seus olhos claros, mas no ser, jeitos e trejeitos.

O tempo passava rapidamente, mesmo estando sob o comando de um ser frio como Amarante. Ao menos frio ao ver de primeira impressão.

Entraram em uma rua com vendas e comidas caseiras típicas, mas tinha uma loja de discos antigos tocando uma das músicas favoritas de Francesca. Era ‘Everybody Wants to Rule the World’do Tears For Fears. O sentido que fazia esse tipo de música naquele lugar e momento não existia, mas logo foi Francesca pulando e dançando. Tinham feixes de luz ao redor da rua, eles sobrepostos seu rosto passavam em câmera lenta para Amarante. Nada fazia sentido, mas se fosse um sonho, Amarante não queria acordar.

Quando amanheceu, Amarante foi feliz e muito bem arrumado para faculdade. O sorriso continuou e estava lá estampado. O motivo estava em outro sorriso, um italiano pra ser preciso. As memórias foram construídas, mas algo ali mudou. Havia sido o último dia de Francesca no Brasil, era hora de voltar para Itália. Amarante todo feliz foi encontrá-la, mas nada achou. Talvez fosse o timing errado demais, ou ele o cara errado.

Rafael logo saiu dali com saudades e uma sensação inexplicável. Acendeu um cigarro e percebeu. Talvez tudo aquilo tenha sido como um acender de um cigarro. Era um prazer curto. E assim aconteceu, Francesca foi acendida e sumiu como o esvair de uma fumaça.

Posted by:Victor Hugo

Just a mad man with a box.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s