Ela está sentada sobre o capô do meu carro com os pés apoiados no para-choque, enquanto fuma desajustada o último cigarro que terei a honra de ver. Os cabelos dançam conforme o vento lhe sopra os últimos tragos de meses regados a instabilidades e algo que nós nunca iremos definir, mas seus olhos castanhos continuam ali, fitando o mesmo mar e entardecer onde ela me disse que jamais partiria. Mas hoje ela parte e eu sei disso.

E também sei que esses mesmos olhos, que observam as ondas quebrarem conforme o sol se guarda no mar, já não me olharão com o mesmo vislumbre que me olhavam nas noites frias em que nossos corpos irregulares se encaixavam no meu banco traseiro.

Mas não é isso que dói, infelizmente. Me dói vê-la e saber que nela eu já não sou presente. Que nesta mente bagunçada que ela tanto projeta coisas e mais coisas, eu sou um arquivo morto guardado nos escombros de tudo que destruí em doses homeopáticas de dias e mais dias. Como quem, para ela, hoje é só uma onda se quebrando dentro de seus olhos infinitos. 

Eu não me surpreenderia se daqui semanas ela aparecesse diferente em alguma foto no Instagram. Ou que algum amigo em comum nosso fosse me dizer que ela já não tem mais os cabelos castanhos e longos, que agora tem um piercing e que frequenta novos bares com medo de que as lembranças a abracem e convidem para uma conversa invasiva de como ela está após a partida.

A partida que partiu ela. E consequentemente, me partiu.

Os velhos vícios retornarão e ela os tratará como novos, sentirá as mesmas sensações e no fim da noite, olhará para o celular pensando em responder aquela mensagem que ela tanto lutou para ignorar. A minha. 

Até hoje ela não me respondeu.

E eu sei que mudanças são imprescindíveis, ainda mais para ela que está em uma constante metamorfose. Mas, talvez o que ela não saiba, é que o sentimento que compartilhamos nunca mude, e seja como uma matéria, que sempre está em transformação. Mas eu e ela iremos mudar e transformar e o sentimento viverá ali, nas nossas mudanças e transformações. 

E se ela quiser, eu a encontrarei – ainda – com os mesmos olhos desta quinta-feira quente, onde tudo o que me sobrou foi o frio que ela me deixou na cama. 

Eu ainda a vejo descendo do meu capô e me dando o último beijo, amargo e doce ao mesmo tempo, partindo em direção a praia e deixando comigo o cheiro do último trago que ela deu em minha memória. Agora, o que antes era meu, hoje está perdido em um universo que eu nunca mais verei do mesmo jeito. 

Eu a transformei para não me querer mais. 

Posted by:Malu Reining

uma nada extraordinária garota

2 replies on “Eu a parti me partindo

  1. Estou acompanhando a página a pouco tempo mas já estou amando. Cada texto me inspira de uma maneira diferente. Obrigada por nos presentearem com essas frases que me fazem pensar tanto ❤

    Curtido por 1 pessoa

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