“Se livre disso tudo.” 

E eu me livrei. 

Você se sentou em sua cadeira de madeira enquanto alinhava a tela e os pinceis na mesa ao seu lado, metódico, não dirigiu o olhar para mim uma vez sequer, como se estivesse evitando se perder em minhas curvas. 

Meus dedos abaixam lentamente o zíper até ele chegar ao seu limite – assim como você, que chegaria ao seu limite hoje – e o empurro até senti-lo jogado aos meus pés tirando delicadamente os mesmos de dentro dele. Minhas mãos frias passeiam pelo meu corpo em chamas, sentindo as quatro últimas peças que me restavam: o sutiã, a calcinha, a cinta liga e as meias. 

A renda preta contrasta com a palidez de toda minha derme, criando o conjunto perfeito com meus lábios vermelhos, meus dedos param no fecho do sutiã e o sinto me observar de canto. Um sorriso travesso me brota nos lábios e, do jeito mais doce e sussurradinho, te peço ajuda nesse maldito sutiã que não quer me deixar livre para seus desejos mais profundos. Seus olhos pela primeira vez se abrem de verdade enquanto suas mãos estão passeando descontroladamente por suas coxas, secando-as do suor que me banharia mais tarde. 

Você vem até mim com certo receio e me viro de costas, te dando a visão que tanto está evitando; suas mãos me tocam e te olho sob o ombro, passando a língua pelo lábio seco e te pedindo que, por favor, tire esse sutiã logo. Você o tira e suspira, se afastando logo em seguida e se concentrando de maneira inútil em sua tela em branco.

Meus dedos prendem na lateral da calcinha e a abaixo devagarinho, até que ela esteja jogada em seu chão. Você está concentrado demais ajeitando seus materiais, tentando se manter em sua órbita profissional e eu não me canso de observa-lo. Me delicio com seu auto controle em não me devorar com esses benditos pinceis que você tanto arruma, cruzo as pernas e pigarreio, te fazendo prestar o mínimo de atenção em mim. Proponho-te que, ao invés de me pintar, por que não pintar em mim? Seus olhos abaixam e vejo um breve sorriso formando-se nesses lábios tão sérios. Para minha surpresa, você não contesta, apenas me manda sentar em sua cadeira e ficar bem, bem quietinha. E eu, como uma boa tela, me sento ali e fico apreciando sua atenção em todo o meu busto nu ao seu dispor. 

Suas mãos ágeis começam a trabalhar e logo sinto a tinta fria contrastando com a quentura do meu corpo, você me olha nos olhos a cada pincelada, como se questionasse o que se passa em minha cabeça ou qual meu próximo pedido. Seus dedos esbarram em meio a meus seios e eu sorrio com a vermelhidão que toma conta do seu rosto, pedindo desculpas e mais desculpas. Mordo os lábios e sussurro que está tudo bem, você assente e volta a se perder em meu corpo.

Minhas mãos tateiam toda sua enorme mesa até achar um maço de cigarro, Goudan, brinco com a caixa entre meus dedos e te olho de lado, sorrindo ao trazer comigo o isqueiro que estava nas proximidades. Tiro um dos cigarros e o seguro entre os lábios, acendendo-o e o tragando em seguida, soltando a fumaça por entre os fios de cabelo que caem em meu rosto, fechando os olhos e sentindo o amargo me abraçar a língua. E suas mãos, abraçarem meu corpo. 

Horas e horas se passam e seus lábios estão direcionados a minha barriga, calculando milimetricamente qual sua próxima pincelada, suas mãos dedilham minha cintura e logo a agarram me puxando para a ponta da cadeira, suas mãos estão subindo por minha coluna até chegar a minha nuca e agarrar-me os cabelos com força, puxando-os para trás, até que tenha uma boa visão de todo o meu rosto contorcido no prazer de tê-lo, enfim, despejando todos os seus desejos sobre meu corpo pintado por suas cores. Minhas pernas encontram seu quadril e se prendem no mesmo, puxando-o cada vez mais para cima de mim, até que não haja nenhuma distância entre nossos corpos. Meus lábios encontram sua pele e logo começo a descobrir seu gosto

no pescoço você é agridoce

nos lábios, é doce.

E eu continuo descendo, guardando todo o seu sabor na minha boca até provar o que realmente quero: o gosto das suas cores mastigadas junto da minha falsa pureza, que clama por cada pincelada tua neste corpo frígido que te implora os tons mais belos para colorir este vislumbre de amor que nos une pela arte.

E eu e ele somos uma obra. Composta por cores, cheiros, sensações, sons e paixão. Ligados a nada mais que isso. Aspas abraçadas no chão de madeira de seu ateliê, enquanto suas tintas caem sobre mim e suas mãos colorem cada centímetro deste meu corpo que também o colore. E naquele instante, eu sei que nós dois estávamos criando nossa própria cor.

E em mim, eles despejará tudo, além de cores. Mas sim amor, desejo, paixão e arte. E o que mais nós quisermos pintar em nossa tela. 

Posted by:Malu Reining

uma nada extraordinária garota

4 replies on “Eu sou tua tela 

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