Eu estava indo deixa-la em casa, pela primeira vez. Ela morava em um prédio velho logo acima de uma padaria que, talvez, na antiga São Paulo, fosse popular o suficiente para manter-se. O mesmo encontrava-se em ruínas, a velha pintura antiga constratava com as janelas que observam constantemente o caos paulistano. E ela. 

Nas pontas dos pés, ela adentrava todo o grande salão, pisando em toda e qualquer rachadura desenhada no mármore sujo enquanto sorria de cabo a rabo a todos os olhares intrigantes direcionados a nós. Intrigados com algo que eu obviamente não sabia. 

Murmúrios aqui e ali e passos apressados em direção ao grande corredor que nos levariam aos outros andares, quando sinto seus dedos descendo por toda a extensão de meu braço e passeando por entre minhas veias, para, em um gesto simples, sua mão se encaixar com a minha, estabelecendo ali, um nó profundo e apertado. Um nó entre nós.

 Um nó que me disse o que eu não sabia.

Eu sou o primeiro nó desatado que ela atou com todas as forças neste pequeno gesto, que, aos olhos de sua caquética vida, algo grande se firmou. 
De degraus em degraus e de olhares sobre o ombro, eu estava estagnado em frente a sua porta, uma porta verde escura com detalhes em dourado. 

Observando cada detalhe daquilo que me impedia de descobrir um mundo do qual se era tão escondido dos outros mundos, com chaves, trancas e fechaduras. 
E aos poucos aquilo me foi descoberto, em doses homeopáticas de clareza e estranheza. Mas uma estranheza reconfortante. 

Era uma bagunça. 

Uma bagunça talvez bonita para quem enxergasse através de toda aquela zona turbulenta. Mas, para mim, era poesia. A grandiosa janela que tudo observava se compunha de, talvez, o que ela fosse nomear como jardim. Haviam cravos, folhagens, margaridas, suculentas e cactos e, ao que parecia, um projeto de girassol. 

– Eu gosto de pensar que o sol que me aquece nas manhãs antes do trabalho, é o mesmo que serve de alimento para o meu girassol. 

Foi o que ela me disse enquanto se despia de todos aqueles casacos e o medo de ter alguém em seu mundo trancafiado a orgulho e arame farpado. No chão, pilhas e mais pilhas de livros – provavelmente lidos em madrugadas de tormenta por conta da cacofonia da grande avenida logo abaixo de seu nariz – que apoiavam vasos de flores e seus famosos brincos de argola. 

Como Kafka, Guimarães e Lispector se sentiriam em saber que em suas obras, uma audaciosa garota apoiava suas flores? Intrigados, no mínimo.

Meus olhos provavam de cada centímetro daquelas paredes que emolduram a essência dessa mulher, que encostada na parede por pintar, me observava devorando os dedos, pronta para uma partida que nunca aconteceria. Pronta para que eu notasse que tudo aquilo é o mais puro caos e que eu não preciso de mais bagunça.

Mas eu preciso da dela. E eu gosto..
Assim como quero que ela espalhe sua bagunça no meu chão em todos os dias da semana, misturando-se com a minha e que, depois que estejamos bagunçados em nós entre lençóis, iremos admirar toda a bagunça que deixamos um no outro e de como ela é bonita aos nossos olhos. 

Posted by:Malu Reining

uma nada extraordinária garota

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