A semana não passava de um conglomerado de eventos catastróficos. Essa era a visão de Jim sobre os dias em geral. Mais um da geração pessimista e existencial procurando um significado inexistente.

Costumava passar suas tardes caminhando pela cidade, procurando os míseros detalhes dela e das pessoas que por ali passavam. Jim, nome que sua mãe deu pelo amor à Inglaterra, amava fotografia. Por mais ponderosa que fosse sua semana, ele estaria captando momentos com a sua lente e valorizado cada uma delas. Salve seu pessimismo, existia muito amor e vontade de viver dentro de seu rosto carrancudo.

Jim sempre passava pela casa de Aline. Uma simpática senhora que amava a arte e vangloriava qualquer obra impressionista e enaltecia seu jardim. Acreditava ela ter vivido amores famosos no passado e ter sido motivo de arte. Sempre falava de uma filha que ele mal lembrava, mas nunca perguntava a respeito. Só recordava de crescer com ela. Jim a achava peculiar, mas amava tirar fotos de seu jardim na surdina.

Diferentemente dos demais dias, o conjunto de flores clássicos de Aline havia mudado. Eram milhares de Girassóis, Narcissus, Dandelion, Orquídeas e Rosas amarelas e brancas todos os outros dias, mas Jim notou uma rosa nova. Era vermelha e forte em sua tonalidade.

Curioso como sempre, logo foi correndo para casa ver suas fotos dos dias anteriores e comparar. Eis que de fato era uma nova rosa sob seu horizonte. A nova rosa intrigava Jim, pois de certa forma havia algo de diferente nela. Seu brilho era diferente.

Por mais que odiasse botânica, logo após ter acordado vestiu seu casaco e foi correndo para o jardim de Aline. Gostaria de fotografar e memorizar ela pra sempre. Uma espécie de ensaio fotográfico sobre a beleza daquela flor, dar certo significado a ela. Ora, apenas uma idiotice mundana por parte de Jim.

Logo foi adentrando na casa de Aline. Eram amigos de família, e Aline uma senhora que apreciava a afeição alheia pelos seus gostos. Tirando as fotos de diversos ângulos, parou pra notar a beleza da flor que o desnorteava, assim como o olhar de um velho amor. Mas um amor que talvez nem tivesse achado, mas estava lá dentro prestes a ser despertado.

Aline interferiu e logo falou:

-Não!

-Aconteceu alguma coisa?

-Apenas não.

-Mas com esse não você quer dizer?

-Não tire foto dessa rosa, plantei ela essa semana e cuidei com muito carinho para um moribundo chegar e estragá-la.

-Esse ”moribundo” aqui é uma espécie de filho para a senhora.

-Pois bem, não me leve a mal. Jim, amo suas fotos e seu carinho, mas dessa rosa não. Você não vai entender, apenas vá para casa.

A feição em seu rosto era de frustração plena, pois quando tocaria a flor foi abruptamente interrompido. Sem entender nada que Aline queria dizer apenas aceitou. Cabisbaixo deixou o doce favorito de Aline com ela e foi para sua casa.

Jim era extremamente insistente. Não seria isso que o impediria de absolutamente nada. A rosa estava estática e seu aroma impregnado em seu olfato e roupa. Era uma rosa vermelha como todas as outras. Não conseguia entender o afeto que tinha com ela. Era de certa forma novo e nostálgico, confrontando seu próprio dualismo.

Na manhã seguinte foi com sua bicicleta a casa de Aline e viu um muro sendo construído e o irmão de Aline ao lado. Andava com dificuldade, sua muleta o ajudava, mas mesmo assim o envelhecer estava visível.

-Pierre, aconteceu alguma coisa?

Pierre estava com dificuldade para enxergar e com uma voz rouca e lenta respondeu:

-Jim, é você?

-É sim, Pierre. O senhor não vem para cá faz muito tempo.

-Meu garoto, quanto tempo…

-Não estou gostando desse seu tom.

-Lamento dizer dessa forma, mas Aline está no hospital. Sabe, ela estava doente faz muito tempo, mas acredito que era um segredo. Ninguém além do médico sabia.

-Onde ela está? Vou ve…

-Não, ela odiaria isso. Ela precisa descansar. Mas deixarei você sozinho. Bom te ver, garoto. E nossa, odiei esse muro.

Desolado, Jim apenas via aquela rosa a encarando a distância entre os buracos do muro. Era buracos estilísticos, mas tirava a beleza de um rico jardim. Mas a ideia daquela rosa escondida estar sozinha, longe e com uma beleza sem descrição o frustrava.

Cada dia mais a casa estava sozinha, com o muro aumentando. Mas todos os dias Jim aparecia para conversar com a rosa, mesmo que não obtivesse resposta. Queria apenas desfrutar de sua beleza. Era tudo que precisava.

Em um dia de chuva, Jim achou que deveria rever aquele jardim que tanto o fascinava e pular todos aqueles muros criados para nenhum invasor. O ato de tocar naquela flor valeria qualquer coisa, até mesmo um dia na prisão por invasão domiciliar. Eram muros de defesa a um medo que Aline nunca tivera, pois talvez ninguém tivesse chegado ao ponto que nem ele mesmo compreendia.

Com seus longos braços e um pulo, agarrou o topo e foi subindo de maneira desajeitada e se arranhado naquele muro recém levantado. Quando pulou, cortou seu pé no arame que não havia sido colocado e estava no chão. Mais uma proteção, mais um atraso. Mesmo assim, Jim continuou com o pé sangrando e achou a flor. A maneira que olhou para ela era sincera, como o olhar direcionado ao seu grande amor. Seu espinhos o cortava, mas tudo isso valia a pena. Ouviu um barulho de carro e viu que talvez não fosse a hora de ficar ali, e correu para longe. Como os muros, o medo também existia em Jim.

Em seu humilde apartamento tocava o interfone. Era cedo, algo próximo das seis da manhã. Titubeando foi atender. Era Pierre, e as notícias eram péssimas. Aline faleceu e deixou algo para Jim lá em sua casa.

Todo de preto e sem saber como reagir só havia Pierre. Aline era famosa na sociedade, mas no final de sua vida nem mesmo sua família lembrou de sua existência. Pierre nem falou com o garoto, apenas lhe entregou uma carta que se assemelhava com um testamento.

Em sua carta, Aline contara as histórias daquele jardim e a importância de Jim. Naquele Jardim foi concebido sua filha, Amélia. Era um segredo tão introspectivo que nem mesmo ele sabia. Ela explicava o motivo de plantar aquela rosa, pois o vermelho lembrava o fogo contagiante de sua personalidade e o seu olhar forte. Além do mais, eram suas favoritas. Amélia era cuidada por um casal em outra cidade. Aline se arrependeu, mas não tinha condições na época. Tinha recém descoberto a localidade de sua filha, e a flor o significado da volta. Mas infelizmente, nunca seria capaz de revê-la.

Sem entender nada, viu um carro chegando. Com lágrimas nos olhos leu as últimas palavras de Aline.

‘A casa é sua. Faça diferentemente de mim e lute pelo seu amor. Ame e não tenha medo, Valorize e faça esse durar. Ache minha filha, fale pra ela que ela sempre esteve em meus pensamentos. Cuide dessa rosa, veja a crescer. Queria te mostrar novos significados, mas acho que agora está pronto pra entender e desfrutar dela. Amélia um dia me perguntou: ”Mãe, qual o motivo das melhores pessoas irem tão cedo?”. Tinha acabado de perder alguém e ela não entendia. A perguntei com o meu achismo ”Quais flores você tira do jardim?”. Ela respondeu com a resposta mais clara possível: ”As mais bonitas”. Não faça isso agora, a cultive. Veja ela crescer por si só, não seja o dono dela, mas o amante mais puro.

Com amor,

Aline.”

Era Amélia chegando com suas malas com uma feição perdida. Seu olhar realmente era forte e havia lembrado o motivo da flor ser tão nostálgica. Amélia foi seu primeiro amor, o mais puro e idiota. E ver ela novamente com um misto de sentimentos era complicado. Mas talvez fosse o mundo o ensinando e jogando na sua cara de que não poderia perder essa chance. De reconhecer e aceitar seu amor.

-Você é a? Eu acho que me lembro de você.

-Jim?

Meses se passaram e Jim havia percebido o amor. O tom que ela havia o dado. O significado de muita coisa dentro de uma vida tão existencial e catastrófica. Tudo era amor. Os gestos, o afeto e até mesmo uma flor. Passava a manhã vendo a flor em seu jardim. Ele a cuidou. Se era pra sempre não sabia, mas apenas de que cuidaria dela com todo seu amor. Ver ela crescer e desabrochar como o toque de sua mão nos fios de cabelo de Amélia fizeram o entender e compreender o real significado daquela flor. Sua cor era sublime e enraizou algo em Jim, o sentimento.

 

 

Posted by:Victor Hugo

Just a mad man with a box.

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